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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Por que os homens amam com os olhos e a mulheres com os ouvidos? Por Michel Aires de Souza


Vai, portanto, não hesites. Procura conquistar todas as mulheres. Em mil, haverá talvez uma para te resistir. E quer cedam, quer resistam, todas gostam de ser cortejadas. Mesmo se fores derrotado, a derrota será sem perigo. Mas por que serias repelido, já que toda volúpia nova parece mais gostosa e somos mais seduzidos por aquilo que não nos pertence? A colheita é sempre mais abundante no campo alheio, e o rebanho do vizinho tem as tetas mais grossas. (Ovídio – Sec I a.C) 
Esta frase foi escrita por-Ovídio no seu livro “A arte de Amar” no século I a.C. Este livro levou Ovídio a ser expulso de Roma pelo imperador Augusto, uma vez que promovia o amor extraconjugal, algo intolerável para um governo que valorizava a família e os bons costumes. Apesar de ser um livro muito antigo, suas idéias ainda permanecem atuais, pois a natureza humana não se modificou de lá para cá. O homem sempre foi um ser sexual e a mulher sempre foi um ser afetivo. Mas por que isso sempre foi assim? Por que o homem é um animal tão devotado ao sexo e a mulher aos sentimentos? Numa primeira análise, somos levados a crer que esses impulsos são naturais. Mas numa análise mais atenta, percebemos que esses impulsos foram determinados historicamente. O homem não é somente um ser biológico determinado pela natureza, mas também é determinado historicamente pelas práticas sociais. 
A sexualidade e a reprodução são características imanentes no ser humano, assim como a função da alimentação; no entanto, o amor transcende a mera reprodução e sexualidade. O amor não surge como algo pronto e acabado, mas sim se desenvolve historicamente. Tal é a hipótese que tentaremos demonstrar.
Tornou-se comum pensar que o amor surge na espécie através da atração sexual. Ele seria um sentimento inconsciente que a espécie usou para se reproduzir. Contudo, o amor não pode ser definido apenas como desejo sexual. Do nosso ponto de vista, o amor não tem por fim a sexualidade e a reprodução. A reprodução teve um papel fundamental na criação do amor na espécie humana; todavia, em sua evolução ele transcendeu a mera sexualidade.
A psicologia e a psicanálise sempre partiram do pressuposto de que os acontecimentos da infância deixam marcas profundas na estruturação da personalidade. Esse postulado nos faz pensar a infância da humanidade. Essa infância deixou marcas indeléveis na natureza humana e determinou as diferenças entre os homens e a mulheres. Para entendermos a relação amorosa em nossos dias, devemos buscar uma resposta nos primórdios da humanidade, quando o homem era ainda um antropóide. A resposta para entendermos a origem do sentimento do amor se encontra numa época onde o homem ainda não se diferenciava da natureza. Os impulsos animais ainda não haviam se transformados em impulsos humanos. O nosso argumento parte de pressuposto que há traços mnemônicos de épocas passadas que ressoa em nós. O passado da humanidade permanece determinando nossas ações, nossos sins e nãos, nossas escolhas e necessidades. 
Foi longo o processo que formou o amor ao sexo oposto, foram necessários muitos estímulos repetitivos para que o desejo se tornasse nivelado. Hoje o homem ama com os olhos e a mulher com os ouvidos. O homem é atraído quando olha uma bela forma, um corpo bem definido, uma beleza estonteante. Já a mulher é atraída por uma boa conversa, pelo cavalheirismo, pela delicadeza e pelos bons modos. O homem é mais visual, suas emoções, desejos estão ligadas ao olhar. Já a mulher é auditiva, com uma simples frase ela pode ser conquistada. Já dizia o filósofo alemão Nietzsche, “lançou uma frase no ar, como diversão, e essa frase fez cair uma mulher”. O homem é como um beija-flor, quer copular todas as flores e a mulher é como uma árvore, quer criar raízes e um abrigo para seus pássaros. Mas como será que surgiram estes dois impulsos básicos no homem e na mulher? 
A cinco milhões de anos o homem era ainda um antropóide, andava em bandos, era nômade e habitava em árvores e cavernas. Os impulsos animais ainda não haviam se transformados em impulsos humanos. O homem era ainda vontade e espontaneidade, pois não existia o controle de seus impulsos. Nessa época ele tinha o domínio de todas as fêmeas do grupo, mas constantemente tinha que provar sua força diante de outros machos. Ele não copulava apenas com uma fêmea, às vezes copulava com várias em um único dia. A mulher antropóide, por outro lado, era totalmente subjugada, sendo dependente do macho e só copulava quando ele queria. Ela podia ficar meses a fio sem sexo, pois dependia da vontade do macho. O homem em sua evolução tornou o estimulo sexual uma prática constante, parte do seu dia-a-dia, ao contrário da mulher que só tinha esporadicamente. Este comportamento durou mais de quatro milhões de anos e meio até o homem tornar-se um Hommo Sapiens, há trezentos mil anos atrás. Foi quando ele começou a pensar. Durante esses quatro milhões de anos e meio o homem não tinha abandonado sua condição animal, vivia em bandos e lutavam pela posse sexual das fêmeas. A atividade sexual do macho era mais constante do que na fêmea. Esta diferença moldou a natureza compulsiva sexual do homem e tornou a mulher um ser mais carente de sexualidade. As relações dos primeiros antropóides moldaram a natureza sexual da humanidade. Em sua evolução o homem e a mulher se tornaram seres singulares e complementares.
Contudo, o sentimento de amor surge no período do neolítico por volta de 10.000 a.C. É a partir dessa época que o homem abandona as cavernas, descobre a agricultura, a domesticação de animais e se torna sedentário passando a manter o objeto sexual ao seu lado. Foi a partir do momento que o homem passou a viver com uma única companheira, evitando o conflito com outros homens, que surgiu nele a necessidade de nunca estar só. Foi a partir desse período que o amor surge como uma necessidade orgânica, tornando-se um instinto na espécie. A partir do Neolítico o homem tornou-se o “Despótes” (chefe da família). Essa mudança radical de nômade a sedentário foi essencial para a formação da libido (impulso sexual) do homem e da mulher. “Aquilo que chamamos revolução neolítica foi, muito possivelmente, antecedido por uma revolução sexual, mudança que deu predomínio não ao macho caçador, ágil, de pés velozes, pronto a matar, impiedoso por necessidade vocacional, porém, a fêmea, mais passiva, presa aos filhos, reduzida nos seus movimentos ao ritmo de uma criança, guardando e alimentando toda sorte de rebentos (…) plantando sementes e vigiando mudas, talvez primeiro num rito de fertilidade, antes que o crescimento e multiplicação das sementes sugerisse uma nova possibilidade de se aumentar a safra de alimentos” (Munford, 1965, p.22). No entanto, o homem continuava sendo o caçador, o que defendia o clã, cuja autoridade era pessoal e arbitrária, decidia sobre a vida, a morte, a guerra e a distribuição de riquezas. A mulher cuidava da casa, do rebanho, dos afazeres doméstico. Por estas razões, os estímulos do mundo exterior atingiram o homem e a mulher de formas diferentes. O homem era aquele que tinha o contato com a natureza. Em suas caçadas e aventuras ou mesmo em guerra ele não deixou de copular com outras fêmeas e pelo contato com o mundo exterior ele se tornou mais visual. No contato com a natureza, através da visão, o homem se tornou contemplação, fruição e receptividade do prazer. É olhando a natureza e outras fêmeas que o homem sente prazer. Por outro lado, a mulher como dona de casa fazia sexo somente com o marido. Suas distrações só poderia ser em casa, local onde ela, por anos e anos vivia e cuja única diversão era conversar e cuidar dos filhos. Era neste ambiente fechado e sem contatos com o mundo exterior que ela vivia. Foi neste ambiente que ela se tornou uma mãe amorosa e afetuosa. Seu contato era apenas com os familiares. Por estas razões a mulher tornou-se mais afetiva, auditiva e menos sexual que os homens.
Hoje sabemos que o homem tem uma natureza mais sexual que as mulheres. Ele é mais visual, vive mais esteticamente, vive para forma e beleza da mulher. Por sua natureza sexual, o homem quer sempre satisfazer suas pulsões com mulheres sempre diferentes, e sempre se mostra farto de cada uma isoladamente. Ele não é atraído pela individualidade da mulher. Os homens são naturezas eróticas, seu amor é genérico. Quando o homem deixou de usar a força para usufruir o objeto do desejo, a vida se tornou carência. Desde que o homem tornou-se sedentário, passando a constituir famílias, o amor passou a ser uma conquista para suprir uma carência afetiva O homem é carente de beleza. Ele busca o belo em todos os lugares. A beleza é medida, harmonia, proporção. A beleza é fonte de satisfação e bem-estar, ela encanta gerando o desejo e o amor. O amor desde os primórdios da vida conjugal sempre teve como motor a carência. Para superá-la ele teve que ser calculista e engenhoso. No amor o que vale é a esperteza, o engano, a ludibriação. A conquista depende da astúcia do homem. O homem deseja sair de um estado de penúria para um estado de riqueza e satisfação. O amor oscila entre possuir a pessoa amada e não possuir. O cálculo, o procedimento eficaz, a coordenação dos meios com os fins na busca amorosa tornou-se uma necessidade. Coube ao homem usar de todos os artifícios para conquistar a mulher. O desejo não se detém diante de nada, nem mesmo diante do perigo. A mulher, por sua vez, é mais afetiva, vive para o cuidado da casa e da família. A necessidade de casar, constituir família e criar filhos é uma necessidade, um instinto. A mulher que não alcança esse objetivo se frustra, torna-se infeliz. Por isso ela se preocupa com a beleza. A beleza é sua astúcia e a sedução é sua arma, seu cálculo, sua forma de operar. A busca da mulher é sempre por amor e segurança. Ela busca inconscientemente um macho que cuide de sua prole tal como nos primórdios da humanidade. A mulher, de forma geral, quando se trata de enfrentar a realidade social e econômica se sente mais confiável ao lado de um homem. Ela busca inconscientemente um apoio de um marido. Além disso, o amor da mulher, ao contrário do homem, é singular. Ela não ama todo mundo, mas apenas ama um indivíduo em particular. Ela ama naquele instante apenas um, como se houvesse no mundo apenas esse. Talvez seja por isso que a mulher primeiro se apaixona para depois fazer amor, já o homem primeiro faz amor para depois se apaixonar. 
Foi a partir do neolítico, portanto, que surgiu a necessidade de unidade e indivisão com outro ser. A partir do neolítico o desejo sexual de reprodução entre dois seres transcendeu a genitalidade e tornou-se amor. A reprodução e a sexualidade não são mais o fator primordial na relação entre dois seres. Há uma ruptura, uma quebra, uma transcendência do amor em relação à vida. O amor torna-se harmonia e união dos contrários, torna-se atração dos opostos e desejo de unidade e indivisão. No amor buscamos o ser complementar. Amamos o que nos completa, na busca do pleno preenchimento e da perfeição. A vida sem amor torna-se uma vida sem sentido. “O fato de ao instinto do acasalamento, que serve apenas para a reprodução da vida, ter-se juntado o amor, que não se preocupa com ela, é uma imensa libertação em relação à vida. Do mesmo modo que a arte é uma, quando se ergue acima do natural”. (SIMMEL, 1993, p.175). O amor ao emancipar-se dos fins de procriação tornou-se um fim em si mesmo. O amor em seu movimento interno, sua força e ritmo tornou-se vida no indivíduo. “O amor, que se tornou algo totalmente autônomo, transvital, em que se realiza a ruptura em relação à vida e seu serviço, transforma-se de novo em vida na natureza erótica (…)”. (SIMMEL, 1993, 175). Desde que o homem abandonou sua condição de nômade, a vida a dois foi assimilada por seu cérebro como prioridade. O amor tornou-se um impulso orgânico. A partir daí ele nunca mais conseguiu ser só. A vida a dois foi assimilada como um bem supremo, como princípio e fim da vida feliz. Quando o indivíduo está só, sente angústia e insatisfação. É comum o desanimo, a solidão, a ansiedade e a depressão no homem solitário. Mas quando há o amor, toda essa insatisfação desaparece, dando lugar à alegria e a satisfação consigo mesmo.

Bibliografia
BARTHES, Roland. Fragmentos de um Discurso Amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991
SIMMEL, Georg. Filosofia do Amor. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
MUMFORD, Lewis. A cidade na história. Belo Horizonte
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