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quinta-feira, 14 de março de 2013

DEUS para DEUS: estupenda grandiosidade DEUS para o homem: estonteante humildade

Consideremos os seguintes textos bíblicos:
· “Deus não é filho de homem, para que se arrependa” (Números, 23.19); “[Deus é] o Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tiago, 1.17).
· “Põe em ordem a tua casa, porque morrerás, e não viverás” (Isaías, 38.1) / “Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas; eis que acrescentarei aos teus dias quinze anos” (id.,ib.,v.5). Entenda-se: Deus, que pronunciara uma categórica sentença de morte sobre o rei Ezequias, que estava enfermo, voltou atrás, diante da contrição e arrazoamento do rei.
· “Senhor Jeová, perdoa; como se levantará agora Jacó? Pois ele é pequeno. Então o Senhor se arrependeu disso: Não acontecerá, disse o Senhor. [...] Senhor Jeová, cessa agora; como se levantará Jacó? Pois ele é pequeno. E o Senhor se arrependeu disso. Nem isto acontecerá, disse o Senhor Jeová” (Amós, 7.2,3, 5 e 6). Ou seja, por duas vezes, Deus ouviu a intercessão do profeta Amós em favor do povo judeu, e alterou o pronunciamento de sua sentença punitiva.
A aparente contradição desses textos se desfaz pelo entendimento de que Deus se revela, na Bíblia, em duas perspectivas: “Deus para Deus”, isto é, Deus em si mesmo, na exclusividade da sua essência, e “Deus para o homem”. Veja-se a tremenda simplicidade, a impressionante concisão com que isso se resume em Êxodo, 3.13-14.
No citado texto, Moisés, convocado por Deus para libertar o povo judeu, escravizado no Egito, pergunta-lhe o nome. E importa observar que o nome, nessa cultura, não era mero rótulo com que, aleatoriamente, se designava alguém. O nome era a expressão de uma característica definidora da pessoa, relativamente a um aspecto físico, psíquico, ético ou espiritual. Esaú, por exemplo, significapeludo; Jacó, suplantador; Elias, Cujo Deus é Jeová.Poderia, também, ligar-se a alguma circunstância de sua vida, tal como aconteceu com o neto de Eli, a quem a mãe expirante pôs o nome de Icabode, Foi-se a glória de Israel.O próprio nome Moisés significa Salvo das águas.
Pois bem, o que Deus respondeu a Moisés?
“E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êxodo, 3.14).
Entenda-se: na primeira perspectiva, “EU SOU O QUE SOU”, Deus se coloca como o Ser indefinível, já que Ele é infinito; e definir, ou definire, é estabelecer fim, ou finis. Absoluta coerência: a única “definição” de Deus é Deus, que começa e termina em seu próprio começo – EU SOUEU, o Alfa e o Ômega (Isaías, 44.6; Apocalipse, 1.8). Ou seja: o princípio e o fim, que é o começo, estão coincididos na realidade do eterno. Sem dúvida, algo inatingível pela compreensão limitada do homem; uma esfera conceitual fechada, impenetrável pela cogitação humana. Aí resplandece Deus para Deus em sua estupenda grandiosidade.
Nessa perspectiva, Deus é imutável. Ele “não é filho de homem, para que se arrependa” (Números, 23.19); é o “Pai das luzes, em que não há mudança nem sombra de variação” (Tiago, 1.17). É o Ser subsistente que, conforme certa colocação do metafísico Richard Taylor, existe por sua própria natureza intrínseca. É “Deus para Deus”, repetimos, em sua estupenda grandiosidade. Quando Ele fez soar sua voz, de cima do Sinai, o monte tremeu e fumegou (Êxodo,19.18). E assim aconteceu, mesmo tendo o Senhor descidoao nível do entendimento do homem.
Na segunda perspectiva, aquela do “EU SOU”, Deus se abre, para comunicar-se com o homem. Para isso, Ele desceà realidade do homem. Ele assume o estilo de ser do homem, estabelecendo um plano de relacionamento que permite o diálogo. E diálogo é interação verbal dos comunicantes, em que locutor e interlocutor se revezam no jogo da locução: o eu torna-se tu, o tu torna-se eu – fato, aliás, intuído pelo rei francês Léopold 1er (Fiorin, 1996), séculos antes de o fenômeno ser tratado nas modernas abordagens da Linguísitca. Com efeito, para não se equiparar a seu criado, na reciprocidade da troca verbal, o rei dava-lhe ordens, substituindo o pronome eu pelo pronomeele, garantia de distância. Assim, por exemplo, em vez de dizer ao criado: “Eu quero minha espada” (Je veux mon épée), o rei Léopold dizia-lhe: “Ele [a majestade] quer sua espada” (Il veut son épée).
Ora, o estilo do homem carrega todas as características inerentes à identidade do homem, que é essencialmente um ser limitado – na capacidade e possibilidade do conhecimento, da ação, do exercício da vontade. É próprio do homem, de ângulos diversos, voltar atrás ouarrepender-se. Assim, pois, ao comunicar-se com o homem, assumindo o exatamente como ocorre nos episódios acima referidos (Isaías, 38.1-5; Amós,7.1-6).
Na verdade, as variações no comportamento de Deus em sua relação com o homem fazem parte do seu misericordioso propósito em abrir espaço para o exercício da fé humana, da oração, da intercessão. Objetivam possibilitar uma intercomunicação de intimidade do Pai com seus filhos. São prova da humildade divina em conferir ao homem o direito de contra-argumentar, de apresentar suas humanas razões, possibilitando-lhe, muitas vezes, interferir, alterar situações que se estabeleceriam de forma diversa. Jesus ensinou: “Pedi, e dar-se-vos-á” (Mt7.7)
É ainda nessa segunda perspectiva, na qual se tem Deus para o homem, que se registram outras mostras daestonteante humildade do SENHOR. São as Escrituras que nos dão provas disso:
· “Porque assim diz o Alto e Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Em um alto e santo lugar habito e também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Isaías, 57.15).
· “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti, que trabalhe para aquele que nele espera” (Isaías, 64.4).
· “O filho honrará o pai, e o servo, ao seu senhor; e, se eu sou Pai, onde está a minha honra? E, se eu sou Senhor, onde está o meu temor? – diz o Senhor dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome” (Malaquias, 1.6).
Foi tão absolutamente grande o propósito de Deus em estabelecer com o homem um nível de relacionamento divinamente humanizado, que o próprio Deus se fez Homem, na Pessoa do seu Unigênito, Jesus Cristo (João,1.14). E, como Homem, Deus se apresentou na suma expressão da humildade. Eis um testemunho do Apóstolo Paulo: “Jesus Cristo [...], sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses, 2.6-8).
E foi com essa absoluta autoridade que Jesus pôde dizer:“aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mateus, 11.28).
Concluindo, pergunto a Você, que acaba de ler este artigo: sua alma está cansada? Muito cansada? Pois saiba: existe Alguém que pode fazê-la descansar... Invoque-O, de todo o seu coração! O Nome dele é Jesus Cristo. Ele ama você, e talvez você nem o saiba.

Maria Helena Garrido Saddi, professora universitária, doutora em Letras, membro da Catedral Evangélica Hebrom. hgsaddi@gmail.com
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